Intervenção psicológica em ocasiões de desastre e emergência | Colunista

Crises são eventos naturais da vida humana. O próprio desenrolar de nossa história é perpassado por períodos de intensa mudança. Utilizando de recursos pessoais (cognitivos, emocionais e comportamentais) respondemos a eles adaptando-nos às novas circunstâncias e ampliando nosso jeito de ser e conviver no mundo.

Ainda assim, há situações para as quais certamente a grande maioria de nós não está preparado. Diante da imprevisibilidade delas as denominamos crises circunstanciais.

Os desastres ambientais de Brumadinho – MG e Mariana – MG, o incêndio na boate em Santa Maria – RS, a crise pandêmica do covid-19 são alguns exemplos de crises que enfrentamos nos últimos tempos no Brasil. Sobretudo, a referida pandemia atingiu a todos, modificando rotinas, isolando-nos em casa, colocando-nos cotidianamente diante do risco de algo invisível que poderia afetar nossa saúde. Crises circunstanciais nos despertam sentimentos intensos, confusão, tristeza, desesperança, confusão, desorganização, raiva, ansiedades e pânico.

Diante deste cenário, as estratégias que costumamos utilizar para resolução de problemas parecem não funcionar ou, ao menos, não funcionar com a mesma efetividade. A resolução final da situação escapa às nossas mãos, independe da nossa vontade. Qual o papel da Psicologia diante das dificuldades para lidar com situações como essa?

O atual Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP n° 10/2005) tenta responder a esta pergunta. Preconiza que, entre os deveres fundamentais do profissional da psicologia, está o de “prestar serviços profissionais em situações de calamidade pública ou de emergência, sem visar benefício pessoal” (Art. 1°, alínea “d”). Assim, entende-se que o psicólogo é imbuído do valor ético de estar à disposição da sociedade nos momentos de crise. Têm-se aí um compromisso da profissão com a promoção e o exercício do cuidado em Saúde Mental, coletivamente, sobretudo em tempos difíceis.

Ademais, é sabido na literatura científica da área que intervenções psicológicas durante a crise tendem a apresentar resultados mais promissores na prevenção de transtornos de saúde mental associados (como o Transtorno de Estresse Pós-Traumático, por exemplo) que intervenções realizadas após a situação crítica (BOSCARINO; ADAMS; FIGLEY, 2011).

Nas situações de calamidade pública, o próprio profissional está sendo afetado pelos seus efeitos. Assim, para além de oferecer seus préstimos, deve zelar pelo seu autocuidado. Caso não o faça, corre o risco de ter suas próprias emoções difíceis intensificadas, quando diante do sofrimento dos demais atingidos. Cuidar do cuidador é essencial para a garantia da qualidade da intervenção psicológica.

Para além disso, deve capacitar-se tecnicamente, ao longo de toda sua carreira (formação contínua), para estar apto para o enfrentamento e o cuidado em situações de crise. Há diversos protocolos, internacionalmente reconhecidos, para a atuação psicológica em situações de crise junto às vítimas, aos seus familiares e, inclusive, aos profissionais e voluntários que estão trabalhando na linha de frente (DATTILIO; FREEMAN, 2004;
CARVALHO; MATOS, 2016).

A crise pandêmica de 2020 serviu para promover ainda mais a produção científica nesta área. Apesar da variedade de protocolos, princípios como a brevidade, a precocidade, a escuta ativa e ações de psicoeducação são comuns a grande maioria deles.

Intervenções em situações de emergência, especialmente as realizadas com vítimas diretas e indiretas do incidente, tendem a ser breves, rápidas, e, portanto, diretivas. A limitação de tempo impele os profissionais da Psicologia a intervir de forma eficaz nos aspectos mais significativos do fenômeno para a pessoa e sua subjetividade.

É imprescindível que o psicólogo adote postura empática e considere que, em situações de crise, as pessoas vivenciam emoções muito ambíguas e intensas. Expressões de raiva e agressividade, por parte do paciente, devem ser esperadas e compreendidas dentro deste contexto de vulnerabilidade. Vale destacar que, quando tais expressões colocam pessoas em risco, não é responsabilidade do psicólogo o atendimento, até que a situação se estabilize.

Tais emoções difíceis podem obnubilar, também, a compreensão das pessoas acerca do que está ocorrendo. Isto abre espaço para fatos como “teorias de conspiração”, que agravam ainda mais sintomas de ansiedade. Nessa perspectiva, parte da atuação do psicólogo é de levar às pessoas informações de confiança sobre o fenômeno. Ademais, atividades de psicoeducação, que auxiliem as pessoas a perceber seu próprio funcionamento psíquico e a compreender e lidar com a ambiguidade de suas emoções, são importantíssimas para que possa o indivíduo, focando no presente, beneficiar-se da intervenção a ele oferecida.

O psicólogo deve ajudar o paciente a desenvolver técnicas de regulação emocional, a fim de que consiga reconhecer, nomear e manejar emoções difíceis. Destaca-se que é preciso que tais emoções sejam validadas, afinal, parte da experiência humana é confrontar-se com sentimentos de tristeza, ansiedade, raiva e culpa. Aceitá-las é o primeiro passo para manejá-las e vivenciá-las de modo mais adaptativo.

A intervenção em Psicologia precisa – e talvez seja esse o núcleo desta proposta de atendimento em situação de emergência – auxiliar as pessoas a identificar recursos que funcionaram para ajudá-las em outras situações de crise já vivenciadas. Lembrá-las de que já passaram por momentos difíceis.Que possuem ferramentas (estratégias de enfrentamento) que podem ser adaptadas para a situação presente.

É comum que em situações de desastre haja um esgotamento das estratégias anteriormente utilizadas. Assim, é papel do psicólogo ajudar as pessoas a ampliar seu repertório comportamental: aprenderem novas estratégias que possam ser utilizadas agora. A percepção de que há novas estratégias a serem utilizadas reduz nas pessoas os sentimentos de desespero e desesperança.

Por fim, e considerando que a intervenção se estenda por um certo tempo, deve o profissional auxiliar as pessoas nas tarefas (exteriores e interiores) de reorganização da vida após o evento aversivo. Parte das dificuldades associadas a situações difíceis está em reorganizar-se, nas pequenas coisas, para adoção de uma rotina, sem sofrer demasiadamente com ansiedades e inseguranças. Assim, o psicólogo auxilia o paciente a
reorganizar a própria rotina, a planejar o futuro, a elaborar o luto decorrente da situação de crise.

Por fim, avalia outras demandas de Saúde Mental que podem eventualmente surgir e, ao identificá-las, elabora metas e planos de intervenção específicos que respondam à elas.

Portanto, o psicólogo, intervém para auxiliar as pessoas e a coletividade a enfrentar os dissabores e dores de momentos de crise, tanto quanto para ajudá-las a se reerguer, após o término destes. Pode a Psicologia, em muito, contribuir com a saúde e o bem-estar de todos os afetados e é este um dever ético de todo profissional que se capacite para tal fim.

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REFERÊNCIAS

BOSCARINO, Joseph A.; ADAMS, Richard E.; FIGLEY, Charles R. Mental health service use after the World Trade Center disaster: utilization trends and comparative effectiveness. The Journal of nervous and mental disease, v. 199, n. 2, p. 91, 2011.

CARVALHO, Marina Alexandra Diogo; MATOS, Maria Margarida Gaspar de. Intervenções psicossociais em crise, emergência e catástrofe. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, v. 12, n. 2, p. 116-125, 2016.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Resolução CFP nº 010/2005. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília, 2005.

DATTILIO, F. M.; FREEMAN, A. Estratégias cognitivo comportamentais de intervenção em situações de crise (MA V. Veronese, Trad.). Porto Alegre: Artmed. (Trabalho original publicado em 2000), 2004.

SÁ, Samantha Dubugras; WERLANG, Blanca Susana Guevara; PARANHOS, Mariana Esteves. Intervenção em crise. Revista brasileira de terapias cognitivas, v. 4, n.1, p. 0-0, 2008.