O problema da pseudociência na psicologia | Colunista

Introdução

“Sejamos claros: as pseudoterapias matam”

Esta é a sentença de abertura do Primeiro manifesto mundial contra as pseudociências na saúde, uma iniciativa para combater a desinformação e principalmente o uso de métodos terapêuticos não suportados pelas evidências cientificas disponíveis.

O documento possui a assinatura de representantes dos mais variados campos de atuação, desde biólogos, como a proeminente cientista brasileira Natalia Pasternak, até representantes da psicologia, como o psicólogo e divulgador cientifico norte-americano Steven Pinker. 

Apesar dos exemplos descritos ao longo do manifesto representarem prioritariamente as consequências de tratamentos para condições próprias da medicina, é não apenas possível, mas também necessário, redirecionar essas reflexões para outras áreas da ciência, como a psicologia. 

Nesse sentido, aqueles que representam essa área, como estudantes, pesquisadores e psicólogos clínicos, são provocados a algumas reflexões: Como podemos mitigar a divulgação e o acesso as pseudoterapias? Quais são as consequências que a prática psicológica pseudocientífica pode ter sobre os pacientes e sobre o status da própria psicologia?

Considerando o atual impacto que a internet exerce na vida cotidiana, é natural que muitos dos seus recursos sejam utilizados como ferramenta profissional. Por exemplo, o Instagram é hoje a plataforma de compartilhamento de vídeos e fotos mais popular do mundo, possuindo cerca de 1 bilhão usuários ativos por mês. Um alcance dessa magnitude torna a internet, e principalmente as redes sociais, um poderoso instrumento de marketing e divulgação de informações. 

Por um lado, isso facilita o acesso à informação, promovendo uma espécie de democratização do conhecimento. Entretanto, a veracidade das informações divulgadas parece ser uma questão permanentemente incômoda, como é possível constatar, por exemplo, através da constante disseminação das chamadas fake News no combate a COVID-19 e do sempre presente negacionismo climático (SOUSA JÚNIOR et al., 2020; MIGUEL, 2020)

Antes de prosseguir, é importante fazer algumas considerações sobre o conteúdo presente no decorrer desse texto. Primeiro, seu objetivo é promover uma reflexão sobre os potenciais perigos que a divulgação de informações falsas, mal fundamentadas e pseudocientíficas tem sobre a psicologia enquanto ciência e profissão. Segundo, não é objetivo desse texto fazer julgamentos valorativos sobre práticas ou métodos específicos de intervenção.

A premissa básica sobre a qual as ideias aqui expostas se fundamentam é a de que, na era da informação, o exercício da psicologia ultrapassa os limites da prática clínica. O que significa dizer que há uma responsabilidade inerente ao uso das mídias sociais na veiculação de informações por parte dos estudantes e profissionais enquanto representantes da psicologia. Essa responsabilidade já foi previamente descrita pelo Conselho Federal de Psicologia (2005), através do Código de Ética Profissional do Psicólogo.

O que são pseudoterapias?

De acordo com o filósofo da ciência Mario Bunge (1998), a pseudociência é um corpo de crenças e práticas cujos defensores desejam, ingenuamente ou maliciosamente, considerar fruto do método cientifico, mas que na verdade adotam métodos duvidosos de investigação ou distorcem os resultados e as evidências disponíveis. Nesse sentido, as pseudoterapias se configuram como o uso especifico de conhecimentos pseudocientíficos no âmbito da saúde.

Moriana & Gálvez-Lara (2020) definem pseudoterapias como uma substância, produto, atividade ou serviço que supostamente objetiva promover uma melhora da saúde, mas que na verdade não conta com o respaldo adequado de conhecimentos científicos ou evidências que garantam sua eficácia e segurança. 

Essas práticas, disfarçadas de cientificismo, estendem ao máximo o efeito placebo proporcionado pelos “tratamentos” que oferecem, além de utilizar a relação terapeuta-paciente para cativar os clientes, o que acaba gerando uma falsa sensação de melhora. Os autores afirmam ainda que a busca por pseudoterapias está relacionada a facilidade com a qual os seus praticantes disseminam informações, utilizando a manipulação, o carisma e a didática para atrair pessoas suscetíveis e algumas vezes, desesperadas. 

Essa afirmação é apoiada pela Asociación para Proteger al Enfermo de Terapias Pseudocientíficas, que complementa esse raciocínio constatando que muitas pessoas que procuram pseudoterapeutas estão em situação de fragilidade emocional ou acabam buscando essas formas alternativas de “tratamento” por superstição, acaso, placebo ou carisma por partes dos seus idealizadores (Moriana & Gálvez-Lara, 2020).

Michael Shermer complementa (p. 30, 2011) “Nossas faculdades críticas recuam ao serem tomadas de assalto pelas promessas e esperanças oferecidas para aliviar as grandes ansiedades da vida”.

Não é objetivo do presente texto expor os mecanismos psicológicos envolvidos na crença em conhecimentos pseudocientíficos, para isso recomenda-se o livro Ciência e pseudociência: Por que acreditamos naquilo que queremos acreditar, escrito pelo professor e pesquisador Ronaldo Pilati, atual presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia.

No livro são discutidas as caracteristicas fundamentais da pseudociência e alguns elementos-chave envolvidos na adoção desse tipo de conhecimento, como os vieses cognitivos e os escaninhos mentais.

O problema das pseudoterapias

A transposição das discussões propostas a partir do conceito de pseudoterapia para o exercício da psicologia pode ser iniciado com os pressupostos de Lilienfeld et al. (2013), que problematizam o fato de muitos psicoterapeutas utilizarem a experiência profissional (evidência anedótica), orientação teórica ou mesmo a própria intuição como imperativo na tomada de decisões e na escolha das intervenções utilizadas na prática clínica. 

O cerne do problema é que práticas psicológicas não sustentadas pela literatura cientifica são potencialmente prejudiciais, não apenas para os pacientes, mas também para o status da psicologia enquanto ciência e profissão. Tratamentos prejudiciais podem ter efeitos piores sobre os pacientes do que a ausência de tratamento ou, no melhor dos casos, não produzirem nenhum efeito acima do placebo.

Lilienfeld, Lynn & Lohr (2014), descrevem as três principais consequências que o uso de pseudoterapias pode ter sobre os pacientes e sobre a própria psicologia:

  1. Em primeiro lugar, técnicas pseudoterapicas são potencialmente prejudiciais por si só, pois não possuem comprovação empírica, são potencialmente manipulativas e/ou sugestivas e frequentemente não avaliam seus riscos de forma adequada.
  1. Em segundo lugar, mesmo intervenções inócuas acabam causando prejuízos aos pacientes de forma indireta, já que estes acabam gastando tempo e dinheiro em intervenções que não lhes trarão retorno algum, ao invés de estarem investindo esses recursos em intervenções realmente eficazes.
  1. Por fim, o uso de técnicas pseudocientíficas acaba deteriorando os fundamentos científicos da psicologia clínica, o que pode levar a uma diminuição na qualidade das produções subsequentes e prejudicar a credibilidade da psicologia e a confiança do grande público nos pesquisadores e profissionais.

A mera busca por publicações não é o suficiente para o direcionamento adequado da prática clínica, já que os mecanismos pelos quais conhecimentos pseudocientíficos se propagam estão se tornado cada vez mais sofisticados, transitando entre a difusão possibilitada diretamente pelo alcance das redes sociais e pela lábia de representantes carismáticos, até a publicação de artigos em periódicos indexados e “revisados por pares”, o que confere uma falsa sensação de confiabilidade a esse tipo de informação.

Isso sugere que é necessário não apenas explorar a literatura disponível, mas também investigar sistematicamente as informações disponíveis e manter uma postura cética em relação aos resultados encontrados, já que a qualidade da evidência depende do rigor metodológico empregado durante a investigação (HUPP et al., 2019).

Considerações finais

Discutir o compromisso que os representantes da psicologia têm com a sua própria atuação clínica e as informações que veiculam serve para promover uma reavaliação dos princípios éticos que acompanham a psicologia, assim como averiguar como esses princípios são postos em prática e denunciar a necessidade imediata de rechaçar práticas ineficazes e potencialmente prejudiciais. 

O primeiro que apontou a necessidade de revisar a eficácia de intervenções psicoterápicas foi o psicólogo alemão Hans Eysenck (1952), através do artigo The effects of psychotherapy: an evaluation. As ideias de Eysenck foram discutidas e investigadas ao longo da segunda metade do século XX e acabaram promovendo uma mudança de paradigma dentro da psicologia e dos métodos utilizados na prática clínica.

Em meados da década de 1990, esforços empregados pela força tarefa da divisão 12 da American Psychological Association (APA) tornaram possível a identificação de uma série de intervenções suportadas pela evidência empírica, os critérios adotados pela força tarefa deram origem a uma lista de tratamentos psicológicos mantidos pela divisão 12 da APA, que classifica as evidências disponíveis para cada tratamento em: Fortes, moderadas e insuficientes (CHAMBLESS et al., 1995, 1996, 1998).

A Asociación para Proteger al Enfermo de Terapias Pseudocientíficas é outra iniciativa desenvolvida com o objetivo de alertar e proteger pessoas desaviadas do charlatanismo e do curandeirismo, eles mantêm em seu site uma extensa lista de terapias pseudocientíficas, onde elencam tratamentos não confiáveis de distintas áreas da saúde, incluindo a psicologia. 

Com um objetivo semelhante (o combate a pseudociência) Scott O. Lilienfeld publicou um texto na Association for psychological Science denominado Os 10 mandamentos para ajudar estudantes a distinguir a ciência da pseudociência em psicologia, onde ele explora temas comumente negligenciados durante a formação superior em Psicologia, como o método cientifico, ceticismo metodológico e os fundamentos da crença em pseudociência. 

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Referências:

BUNGE, Mario. Philosophy of science: Volume 1, from Problem to Theory Science and Technology Studies. Transaction Publishing, 1998.

CHAMBLESS, Dianne L. et al. An update on empirically validated therapies. The clinical psychologist, v. 49, p. 5-18, 1996.

CHAMBLESS, Dianne L. et al. Training in and dissemination of empirically-validated psychological treatments: Report and recommendations. The clinical psychologist, v. 48, p. 3-24, 1995.

CHAMBLESS, Dianne L. et al. Update on empirically validated therapies, II. The clinical psychologist, v. 51, p. 3-16, 1998.

EYSENCK, Hans J. The effects of psychotherapy: an evaluation. Journal of consulting psychology, v. 16, n. 5, p. 319, 1952.

HUPP, Stephen et al., Critical Thinking about Psychotherapy. In: HUPP, Stephen. Pseudoscience in child and adolescent psychotherapy: a skeptical field guide. Cambridge University Press, 2019. P. 1-13.

LILIENFELD, Scott O. et al. Why many clinical psychologists are resistant to evidence-based practice: Root causes and constructive remedies. Clinical psychology review, v. 33, n. 7, p. 883-900, 2013.

LILIENFELD, Scott O.; LYNN Steven Jay; LOHR, Jeffrey M. Initial Thoughts, reflections and considerations. In: LILIENFELD, Scott O.; LYNN Steven Jay; LOHR, Jeffrey M. Science and pseudoscience in clinical psychology. 2 ed. Nova York: Guilford Publications, 2014. P. 1-16.

MIGUEL, Jean. Negacionismo climático no Brasil. Revista de divulgação científica coletiva. org., São Paulo, v. 27, n. 1, 2020.

MORIANA, Juan A.; GÁLVEZ-LARA, Mario. Science and professional practice in clinical psychology. Psychotherapies and pseudo-therapies in search of scientific evidence. Papeles del psicólogo, v. 41, n. 3, p. 201-210, 2020.

PILATI, Ronaldo. Ciência e pseudociência: por que acreditamos naquilo em que queremos acreditar. Editora Contexto, 2018.

SHERMER, Michael. Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas: pseudociência, superstição e outras confusões dos nossos tempos. São Paulo: JSN Editora, 2011.SOUSA JÚNIOR, João Henriques de et al. Da Desinformação ao Caos: uma análise das Fake News frente à pandemia do Coronavírus (COVID-19) no Brasil. Cadernos de Prospecção, v. 13, n. 2 COVID-19, p. 331, 2020.

Por Sanar

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